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segunda-feira, 10 de julho de 2017

1932 oitenta e seis anos depois

Democracia, meritocracia, competência, superação, respeito à lei, ao próximo e a valores maiores que fazem e viabilizam uma nação


A Revolução de 1932 não acabou. A afirmação pode soar um pouco estranha, na medida em que a maior parte dos brasileiros, em 2018, não sabe o que foi o movimento nem as razões que levaram o Estado de São Paulo a se levantar em armas, numa luta desigual com o restante do Brasil. 
Esse esquecimento não é culpa de 1932. É culpa do Brasil que apaga da sua história os movimentos e personagens que dignificam a nação, dão estrutura para a sociedade e servem de exemplo para as novas gerações.
1932 não é exceção à regra. Ao contrário, dadas suas principais características, o movimento paulista, tão logo explodiu, foi distorcido e chamado de separatista pela ditadura no intuito de desmoralizar São Paulo diante dos demais Estados, como ferramenta para isolá-lo do restante do País e permitir sua subjugação rápida pela ação integrada do Exército e das polícias estaduais.

Além disso, terminada a guerra, três meses após a marcha inicial dos paulistas em direção ao Rio de Janeiro para tentar derrubar a ditadura de Getúlio Vargas, o governo federal e os movimentos de esquerda, notadamente os comunistas, começaram a solapar os fatos e apagar a história, porque, antes de tudo, a Revolução de 1932 foi um movimento nascido no seio da burguesia, que recebeu imediatamente o apoio de toda a população do Estado para se implantar os valores democráticos, prometidos e rapidamente destruídos pela Revolução de 1930, que traiu os ideais de boa parte de seus idealizadores e empossou Getúlio Vargas como ditador.
Da mesma forma que não acabou, a Revolução de 1932 não nasceu no dia 9 de julho daquele ano. O início da história retroage à segunda metade do século 19, quando a imigração europeia arejou a visão político-social do Estado e a força criadora dos paulistas encontrou parâmetros, objetivos e sonhos novos para direcioná-la – e a sua capacidade de gerar riquezas – a um padrão socioeconômico inédito no Brasil.
Enquanto o País seguia na sua toada de senhor de escravo, já sem escravo, São Paulo enveredava pela trilha da modernidade e do empreendedorismo, com os vastos recursos do café sendo investidos em atividades novas, em empresas com tecnologias e produtos desconhecidos até então, trazidas pelos imigrantes, boa parte deles com habilidades intelectuais e profissionais desconhecidas no Brasil.
Assim, o parque industrial paulista começa a tomar forma, inicialmente com base na indústria têxtil, indispensável para a confecção da sacaria para o café, e, depois, rapidamente se expandindo para outras áreas, de alimento a maquinário pesado.
O salto tecnológico traz o salto social. A cidade de São Paulo entra na sua corrida desenfreada para se transformar na “Cidade que Mais Cresce no Mundo”. As escolas se aprimoram, novos cursos são abertos, o ensino público é da melhor qualidade, o atendimento à saúde vê surgir as majestosas instalações da Santa Casa, o interior é beneficiado pelo progresso, com as principais cidades oferecendo condições de vida equivalentes às da capital, e o Porto de Santos se torna o mais importante e moderno do País.
A Revolução de 1930 leva à ruptura da ordem política, coloca Getúlio Vargas como ditador e, por erro de visão, entrega São Paulo aos chamados “tenentes”, que não tinham a menor noção do que acontecia no Estado, mas não queriam São Paulo na condição de liderança em que estava fazia mais de 50 anos.
1932 começa a tomar forma neste momento. Os paulistas se sentem ameaçados pela postura dos “tenentes” e reagem como podem. Sem serem ouvidos, começam a se manifestar nas ruas, nas agremiações, nos jornais, etc. O movimento toma vulto, empurrado por ações equivocadas adotadas em relação à administração do Estado.
Ao se sentir realmente desprezada, a população, puxada pela burguesia, acelera os protestos, até a situação atingir um patamar insustentável, que deságua no movimento armado de 9 de julho de 1932. Em outubro, São Paulo foi derrotado no campo de batalha. Parte importante de suas lideranças foi exilada. O Estado foi militarmente ocupado. 
Mas Getúlio Vargas era um homem inteligente, com um projeto de industrialização para o Brasil. A única forma de realizá-lo era por meio dos paulistas. Em 1933, nomeia Armando de Salles Oliveira Interventor no Estado, anistia os exilados e se aproxima, com Roberto Simonsen, dos industriais paulistas.
Em 1934, São Paulo dá ao Brasil a Universidade de São Paulo. Muito mais importante do que a Constituição votada naquele ano ou mesmo do que todas as demais constituições que vigoraram no Brasil, a USP começa a formar líderes políticos e empresariais com cultura, preparo e capacidade profissional muito acima do que se via até então.
De lá até os dias de hoje, os ideais da Revolução de 1932 imprimiram cada vez com mais força sua marca na vida nacional. Foi e continua sendo uma trajetória acidentada e difícil, mas o estado democrático de Direito que o País vive desde meados dos anos 1980 mostra sua vitalidade, inclusive neste momento dramático da vida nacional, quando os valores do Brasil arcaico ameaçam retardar o progresso social da nação.
1932 quer dizer democracia, meritocracia, competência, capacidade de ação e de superação, entrega, respeito à lei, ao próximo e aos valores maiores que fazem e viabilizam uma nação. Por isso, a Revolução de 1932 está mais viva do que nunca no peito de todos os brasileiros indignados com o que fizeram com o País.
FONTE: Antonio Penteado Mendonça *, O Estado de S.Paulo
09 Julho 2017 | 03h00

Rebeldes de 32 pediram aviões aos EUA

Conforme registro do Itamaraty, no Rio, grupo chegou a pagar cerca de R$ 825 mil

 por 6 aeronaves; ministério de Getúlio impediu entrega






Sem armamento suficiente nem condições de adquirir material bélico em solo brasileiro para lutar contra o governo provisório de Getúlio Vargas, os rebeldes de São Paulo tentaram comprar seis aviões de guerra nos Estados Unidos em 1932, que entrariam no País via Bolívia. Em uma ação ousada, que contou com o auxílio de um tenente e um major norte-americanos, os revolucionários paulistas chegaram a pagar US$ 250 mil (o que hoje seriam R$ 825 mil) pelas aeronaves. Elas não foram entregues: o negócio foi interrompido graças a uma intervenção do Departamento de Estado americano, a pedido do Ministério das Relações Exteriores (MRE) de Vargas.
O plano foi relatado em comunicado sucinto enviado pelo MRE, do Rio, então capital federal, a seu embaixador em Washington, Rinaldo Lima e Silva, datado de 3 de setembro de 1932. Classificada como confidencial e tendo como assunto “Situação política interna”, a mensagem dizia (com grafia atualizada pela reportagem): “O Ministério da Guerra informa que os revolucionários de São Paulo procuram adquirir neste país seis aviões Curtiss, que devem vir via Bolívia. Renovamos a recomendação para que essa embaixada exerça a maior vigilância, a fim de evitar qualquer aquisição de material bélico para os rebeldes.”
Correspondência trocada por Brasil e EUA sobre tensão causada por conflito de 1932 está em volumes encadernados no Arquivo do Itamaraty, no Rio de Janeiro, e podem ser consultadas pelo público mediante agendamento Foto: Fabio Motta
Sozinhos, sem o apoio de insurgentes de outros Estados – os constitucionalistas do Rio, Minas e Rio Grande do Sul haviam sido presos ou derrotados –, os revoltosos paulistas tinham dificuldades de se armar. Recorreram à fabricação de artefatos improvisados, como explosivos, e o uso de engenhocas, como a matraca, feita de madeira e dotada de manivela, que produzia som semelhante ao de metralhadora, e tinha como objetivo assustar o oponente, retardando seu avanço no solo.
Entre milhares de documentos da diplomacia nacional, a comunicação Rio-Washington sobre a tensão provocada pela Revolução de 1932 está guardada em volumes encadernados e meticulosamente organizados pelo Arquivo Histórico do Itamaraty, no Rio. Tudo pode ser consultado pelo público, mediante agendamento.
A correspondência mostra que os contatos clandestinos Brasil-EUA eram feitos de uma estação telegráfica em Nova Jersey. Intermediada pelo tenente Lee Wade e pelo major Fleet, do Exército americano, que integrantes da “contrarrevolução” conheceram em passagem deles por São Paulo, a tentativa de aquisição das aeronaves denota a audácia de São Paulo no seu esforço de guerra. “Eles tinham muito pouco equipamento contra todo o poderio do Ministério da Guerra, e estavam sendo bombardeados, daí o desespero para ter aviões e armas modernas. Contavam que seria um movimento nacional, mas tudo acabou restrito a São Paulo”, lembra o historiador Marco Antônio Villa, autor do livro 1932: Imagens de uma Revolução (Imprensa Oficial de São Paulo).
As aeronaves não poderiam entrar no Brasil pela Região Sudeste (o Rio estava sob domínio de forças federais e Santos estava sitiada pelo mar e pelo ar), o que exigiria operação arriscada. Elas chegaram a ser parcialmente pagas com depósitos no Citibank em favor da Consolidate Air Craft, de Nova York. Quando a empresa foi alertada de que os compradores eram insurgentes brasileiros, cancelaram as tratativas. A posição oficial de Washington em relação ao levante em São Paulo era de neutralidade, no entanto, em nome do bom relacionamento bilateral, o Departamento de Estado dos Estados Unidos mandou mensagens tranquilizadoras a Lima e Silva sobre a empreitada rebelde. 
Mesmo desejo. Em pleno julho daquele ano, o governo Vargas também tratara de importar aviões para se fortalecer contra os rebeldes. Sem conflitos externos, a força aérea do Exército era obsoleta, datada ainda do início do século. Não havia sido criada a Força Aérea Brasileira (FAB) – o que aconteceu só em 1941. 
O desejo brasileiro foi expresso em telegrama confidencial do dia 15 de julho do MRE ao embaixador nos Estados Unidos, com a marca de urgente. “O governo brasileiro desejaria adquirir urgentemente aviões militares americanos do último modelo em uso nas forças aéreas desse país. O Ministério da Guerra informa que esse modelo é secreto. Não obstante desejamos que Vossa Excelência procure informações, se possível, sobre preços e especificações e facilidades para vinda imediata.” 
Na mesma mensagem, no entanto, o governo buscava passar serenidade acerca da turbulência interna à sua missão diplomática nos Estados Unidos: “Situação aqui perfeitamente tranquila, mantendo o governo o cerco aos rebeldes e procurando dominá-los com o menor sacrifício material e de vidas.”
O fluxo de mensagens com esse conteúdo foi intenso nos dias seguintes, demonstrando a apreensão do ministério de Vargas. No dia 18 de julho, em caráter “urgentíssimo”, seguiu novo telegrama, que especificava a encomenda: “cinco Boeings com motor Hornet e dez aviões Vought-Corsair com motor Hornet ou então cinco aviões Hawk com motor Wright-Cyclone e dez aviões Helldrives com motor Wright-Cyclone”, “novos e inteiramente equipados com o equipamento militar americano”. 
Ainda em julho, também foram feitos pedidos pelo Ministério da Guerra às fábricas Waco Aircraft Company Troy, do Estado de Ohio, e Colt Patent Fire Arms, em Connecticut, de metralhadoras de aviação, cartuchos e outros materiais bélicos. Todos com requisição expressa de facilitação no embarque para o País.
Foi requerido, até mesmo, que as forças armadas americanas abrissem mão dos próprios aviões, ainda em processo de fabricação, “como prova de amizade” – tamanha a premência do cenário brasileiro. Uma comunicação de agosto confirma que foram adquiridas 28 aeronaves. Mas os registros não informam se foram efetivamente utilizadas contra os insurretos. A brevidade da revolução indica que não.
Fonte: Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo
09 Julho 2017 | 03h00