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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Antonieta de Barros, a primeira mulher negra eleita deputada no Brasil


 

Para que possamos superar nossos pobres hábitos e irmos além de vícios e preconceitos, é sempre preciso que alguém tenha a coragem do primeiro gesto – para enfrentar, muitas vezes na solidão do próprio destemor, aqueles que insistem em querer manter o mundo em um passado excludente que não cabe mais, não pode mais caber, em tempo algum. Para alguém que não é de Santa Catarina, o nome Antonieta de Barros pode soar completamente inédito. Mas se temos qualquer apresso por igualdade de gêneros, racial, liberdade de expressão, pela educação como um meio de mudar e melhorar nossa realidade, conhecendo-a ou não ela também é nossa heroína.

Nascida em 11 de julho de 1901, Antonieta surgiu junto com um novo século, em que as desigualdades de oportunidade e de direitos teriam de ser revistas e transformadas a qualquer custo. E não foram poucas as barreiras superadas: mulher, negra, jornalista, fundadora e diretora do jornal A Semana (entre 1922 e 1927), Antonieta teve de impor seu lugar e sua fala em um contexto nada afeito às opiniões e à força feminina – coragem essa que viria lhe catapultar à condição de primeira mulher deputada do estado de Santa Catarina, e à primeira deputada estadual negra do Brasil.

 Florianópolis no início do século XX

Filha de uma lavadeira e escrava liberta com um jardineiro, Antonieta nasceu 13 anos somente após o fim da escravidão no Brasil. Muito cedo se tornou órfã de pai, e sua mãe então, para ampliar o orçamento, transformou a casa em uma pensão para estudantes em Florianópolis. Foi através dessa convivência que Antonieta se alfabetizou, e assim começou a entender que, para se libertar do destino nada generoso reservado às jovens negras, seria preciso o extraordinário, e assim conseguir escavar um outro caminho para si. E, na época como ainda hoje, o extraordinário reside na instrução. Pela educação que Antonieta pôde libertar-se também da escravidão social que naturalmente lhe era imposta, apesar da abolição. Cursou regularmente a escola e o curso normal até se formar professora.


 Antonieta entre colegas intelectuais e acadêmicos

Em 1922 fundou o curso de alfabetização Antonieta de Barros, em sua própria casa. O curso seria dirigido por ela, com austeridade e dedicação que lhe faria conquistar respeito até entre as mais tradicionais famílias brancas da ilha, até o fim da sua vida, em 1952. Por mais de 20 anos colaborou com os principais jornais de Santa Catarina. Seus ideias foram compilados no livro Farrapos de Ideias, que assinou com o pseudônimo de Maria da Ilha. Antonieta nunca se casou.
 As alunas do curso de Antonieta, com a professora em destaque

O Brasil em que Antonieta se formou educadora, fundou um jornal e ministrou um curso alfabetizante era um país em que mulheres não podiam sequer votar – direito que só se tornou universal por aqui em 1932. Supor a coragem exigida para que, em contexto como esse, uma mulher negra publicasse o seguinte parágrafo assombra e inspira: “A alma feminina se tem deixado estagnar, por milhares de anos, numa inércia criminosa. Enclausurada por preconceitos odiosos, destinada a uma ignorância ímpar, resignando-se santamente, candidamente, ao deus Destino e a sua congênere Fatalidade, a Mulher tem sido, de verdade, a mais sacrificada metade do gênero humano. Tutelada tradicional, irresponsável pelos seus atos, boneca-bibelot de todos os tempos".

 Antonieta sentada entre seus colegas parlamentares, no dia de sua posse em 1935

É também espantoso e profundamente sintomático sobre o próprio Brasil que as três causas da vida e luta de Antonieta (e, nesse caso, vida e luta são uma coisa só) permaneçam pautas centrais, ainda a serem alcançadas: educação para todos, valorização da cultura negra e emancipação da mulher. A própria campanha de Antonieta, em 1934, mostrava claramente com quem falava a candidata, e o tipo de enfrentamento exigido para que uma mulher negra pudesse sonhar em ser aquilo que, para os homens brancos, era oferecido como um futuro acessível: “Eleitora. Tens em Antonieta de Barros a nossa candidata, o símbolo das mulheres catarinenses, queiram ou não os aristocratas de ontem”. A ditadura do Estado Novo viria a interromper seu mandato como deputada, em 1937. Dez anos depois, em 1947, porém, ela seria novamente eleita.


Reconhecimento

Mesmo que já se tenha ouvido falar em Antonieta, a verdade é que o próprio cabimento de tal questão aponta certo absurdo ainda fatal sobre a natureza do Brasil como um todo. Pois para um Brasil livre e igualitário, Antonieta de Barros tem de ser nome tão comum e repetido quanto (ou muito mais do que) Duque de Caxias, Marechal Rondon, Tiradentes ou todos os presidentes ditatoriais que seguem batizando ruas e escolas pelo país.

 A ativista americana Rosa Parks

Peguemos o exemplo de Rosa Parks, a ativista norte-americana que, em 1955, recusou-se a ceder o lugar para um passageiro branco no ainda segregado estado do Alabama. Rosa foi presa, mas seu gesto terminou por disparar uma sucessão de revoltas e resistências por parte do movimento negro que levaria ao grande levante pelos direitos civis (conquistando o fim da segregação e a igualdade de direitos no país) e tornaria seu nome imortal.

 Rosa Parks detida, em 1955

A quantidade de prêmios e homenagens recebidas pela ativista (assim como de ruas, prédios públicos e monumentos batizados com seu nome) é incalculável, e não só nos EUA; o esforço por torna-la símbolo incontornável do movimento social e da luta pela igualdade de direitos é, em certa medida, um mea culpa possível, realizado pelos próprios EUA, a fim de reparar um pouco ao menos o horror capitaneado pelo governo contra a população negra, apesar da ainda intensa desigualdade que reina por lá (e que a possível eleição de um Donald Trump não venha a contrariar essa impressão).




Pois o país que pretendemos construir no futuro é proporcional ao lugar em que colocamos nosso verdadeiros heróis e heroínas do passado – ou nem isso: o futuro do país é equivalente à qualidade de quem consideramos herói ou heroína em nossa história. Antonieta não viveu para ver um país melhor redimir sua luta e o próprio valor da educação, do negro e da mulher na sociedade brasileira.





A voz de uma mulher como Antonieta precisa em muito ser elevada. Toda e qualquer conquista civil, desde então e para o futuro, serão também necessariamente frutos de sua luta, pois, em suas próprias palavras, “Não será a tristeza do deserto presente que nos roube as perspectivas dum futuro melhor (..), onde as conquistas da inteligência não se degenerem, em armas de destruição, de aniquilamento; onde os homens, enfim, se reconheçam fraternalmente. Será, contudo, quando houver bastante cultura e sólida independência entre as mulheres para que se considerem indivíduos. Só então, cremos existir uma civilização melhor.”



© fotos: divulgação

sábado, 18 de fevereiro de 2017

COSA NOSTRA: Maior Máfia Italiana

  
A história da Cosa Nostra pode ser dividida em quatro fases. A primeira, inicia-se quando o rei de Nápoles editou um Decreto, em 1812, para eliminar as “forças populares”, que haviam surgido no Sul da Itália, mas, principalmente, para diminuir o poder que surgia na Sicília. Os Senhores Feudais, para resistir a tal decreto, contrataram indivíduos, chamados de “homens de honra”, criando assim uma espécie de sociedade secreta que se denominaram “Máfia”. Essa fase não é ainda um período mafioso, propriamente dito, mas um período pré-mafioso.
A segunda fase inicia-se com o desaparecimento do Reino de Nápoles, quando essas sociedades secretas passaram a lutar contra as dinastias espanholas e francesas, que sucederam ao trono de Nápoles. A Máfia deixou de ser uma sociedade secreta e se tornou uma sociedade de resistência aos invasores. O povo simpatizou com a Máfia por ser patriótica.
Passou a contar com mais de 100 mil camponeses que se insurgem contra Roma, surgindo a cultura do estresse entre as famílias, gerando hostilidade nas relações adversas que surgiam fazendo com que a defesa da honra significava sobrevivência.
A única base de lealdade era a sanguínea e criou-se a cultura da obediência às regras próprias, quais sejam, a não cooperação com as autoridades e a retaliação a qualquer ofensa a um membro da família.
Essa fase foi de uma “máfia agrária” cuja principal luta foi contra os proprietários de terras que se concluiu somente com a derrota dos movimentos camponeses e com o forte fluxo migratório, quando a agricultura cedeu espaço ao setor produtivo.
Com a miséria que abate a região sul da Itália, no final do século XIX e início do século XX, os mafiosos viajam pela Itália em busca de melhores condições de vida. Mais pobres e rejeitados, se organizam em uma sociedade de autodefesa e criminalizam-se. Para o povo, a máfia era um grupo de camponeses violentos, de “sangue quente” que comumente faziam desafios com final de homicídios. Acontece que, desde 1890, a máfia já era uma sociedade organizada e dotada de poder político com ações internacionais, fraudes e com manobras financeiras.

O aumento da renda permitiu o fortalecimento da sede na Sicília e a diversificação das atividades ilegais realizadas pela máfia.
A terceira fase surge com a instalação de parte da sociedade nos Estados Unidos da América, formando as famílias italianas da América. As famílias eram compostas de parentes, incluindo os norte-americanos e suplementadas por pessoas conhecidas por amigos, que eram indicadas por parentes.
Essa fase é urbano-empreendedora, até o final da década de 1960, em que os mafiosos proliferam-se e se inserem especialmente no setor da construção civil.
A quarta e última fase tem seu início na década de 1970 quando se observa a transformação da “máfia-empreendedora” em “máfia-financeira”. Em um primeiro momento, a Cosa Nostra possuía como grande negócio o contrabando de cigarros e a corrupção em obras públicas. Posteriormente, o principal negócio se tornou o tráfico de entorpecentes.
Os mafiosos, entre os anos de 1940 e 1990, passaram a controlar as eleições na Sicília, adquirindo, assim, certo poder junto à Roma.
A Cosa Nostra se tornou a maior e mais poderosa Máfia, com aproximadamente 180 clãs.
Dois meses depois de Falcone, à esquerda, ter sido assassinado,
 outro juiz anti-máfia, Paolo Borsellino, foi morto num atentado
Através do trabalho sério de autoridades, especialmente do Juiz Giovanni Falcone e do Procurador Paolo Borsellino, ambos assassinados, posteriormente, por membros da máfia, foi descoberta a estrutura mafiosa, que é a seguinte:
A família é a base da organização e controla um bairro ou uma cidade inteira, sendo constituída de homens de honra, “soldados”, agrupados em número de dez. Cada grupo é coordenado por um “capodecina”. Os membros da família elegem o Capo-Família que é assistido por um “Consigliere”, ou seja, assessor. Este é, normalmente, uma pessoa de notável esperteza, sagacidade e é auxiliado por vicecapi (subchefes).
A união de três ou mais famílias, cujas áreas de atuação sejam contíguas, constitui um “mandamento” e nomeiam um “capomandamento”, normalmente um Capo-Família, mas pode ser uma pessoa diferente.
Os capomandamenti constituem uma estrutura colegiada, chamada de “Copola”, que possui a função de garantir as regras da Máfia e de “compor as vertentes da Família” (MENDRONI, 2009, p. 295). A “Copola” é presidida por um dos capimandamento que é chamado de Secretário ou Capo.
Existe, ainda, um colegiado superior, chamado interprovinciale, mas que pouco se sabe acerca do mesmo, mantendo um caráter secreto e misterioso.
Uma das características mais marcantes da Cosa Nostra é que ela se assemelha a um Estado, uma vez que exerce domínio territorial e “taxa” as suas atividades de “proteção”. Aqueles que pagam à Máfia recebem proteção. Os que não pagam, são intimidados e agredidos pelos membros da Cosa Nostra.
Além disso, a ingerência no Estado também é muito marcante, através de subornos e corrupção da máquina estatal.
“A Cosa Nostra, segundo um levantamento da Direzione Centrale della Polizia Criminale de 1995, contava com 5.487 integrantes na Sicília, sendo maior a quantidade no eixo Palermo – Catânia. Palermo teria 59 grupos com 1.492 afiliados e Catânia nove grupos com 1.476 afiliados; sendo os demais distribuídos entre Trapani, Messina, Agrigento e Siracusa” (DI CAGNO apud MENDRONI, 2009, p. 303).
Juiz Giovanni Falcone

Fonte: Rafael de Rezende Lara

http://www.domtotal.com

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Zygmunt Bauman (1925 - 2017)


O emérito sociólogo polonês Zygmunt Bauman nasceu no dia 19 de novembro de 1925, em Poznán. Ele principiou sua trajetória acadêmica na Universidade de Varsóvia, mas logo foi obrigado a deixar a academia, em 1968, ao mesmo tempo em que sua obra era proibida neste país.
Nascido em uma família de judeus poloneses não praticantes, ele e seus familiares transferiram-se para a União Soviética após a invasão e anexação da Polônia (1939) por forças alemãs e soviéticas (então aliadas nos termos do Tratado Germano-Soviético).
Durante a Segunda Guerra Mundial, Bauman serviu ao Primeiro Exército Polonês, controlado pelos soviéticos, atuando como instrutor político. Participou das batalhas de Kolberg (atual Kołobrzeg) e de Berlim. Em maio de 1945, foi condecorado com a Cruz de Valor. Conheceu sua esposa, Janine Bauman, nos acampamentos de refugiados polacos.

Ao longo dos anos 1940 e 1950, Bauman foi um entusiasmado militante do Partido Operário Unificado Polaco, o partido comunista da Polônia. Segundo o Instituto da Memória Nacional da Polônia, entre 1945 e 1953 Bauman era oficial do Corpo de Segurança Interna (em polonês, Korpus Bezpieczeństwa Wewnętrznego, KBW), uma unidade militar especial formada na Polônia, sob o governo stalinista, para combater os ucranianos nacionalistas insurgentes e os remanescentes do Armia Krajowa, a principal organização da resistência da Polônia à ocupação do país, durante a Segunda Guerra. Mais tarde, entre 1945 e 1948, Bauman trabalhou para a inteligência militar, embora a natureza e a extensão de suas atividades sejam desconhecidas, assim como as circunstâncias sob as quais que ele abandonou tais atividades.
Durante uma entrevista ao jornal The Guardian, Bauman confirmou ter sido um devotado comunista - durante e depois da Segunda Guerra - e nunca ter feito segredo disso. Admitiu que ingressar no serviço de inteligência militar aos 19 anos tenha sido um erro, apesar de só ter realizado tediosas atividades burocráticas e jamais ter dado informações sobre alguém.
Enquanto servia no KBW, Bauman também estudava sociologia na Academia de Política e Ciências Sociais de Varsóvia. Mas, em 1953, já no posto de major, foi subitamente excluído do KBW - e de maneira desonrosa -, depois que seu pai se aproximou da embaixada israelense em Varsóvia, com vistas a emigrar para Israel. Uma vez que Bauman não compartilhava absolutamente das ideias sionistas do pai , sendo, de fato, francamente antissionista, sua demissão causou um severo, embora temporário, distanciamento do pai. Durante o período em que ficou desempregado, decidiu completar seu mestrado e, em 1954, tornou-se professor assistente na Universidade de Varsóvia, onde permaneceu até 1968. Inicialmente, Bauman se manteve próximo à ortodoxia marxista mas, influenciado por Antonio Gramsci e Georg Simmel, tornou-se crescentemente crítico ao governo comunista da Polônia. Passaria então a trabalhar, com outros acadêmicos da Universidade, numa concepção humanista do marxismo. De todo modo, Bauman sempre se declarou socialista e, nos seus últimos anos de vida, dizia que, mais do que nunca, o socialismo é necessário ao mundo.
Submetido a uma crescente pressão política, conectada ao expurgo conduzido por Mieczysław Moczar, chefe do Służba Bezpieczeństwa, o Serviço de Segurança polonês, Bauman renunciou à sua filiação ao Partido Operário Unificado em janeiro de 1968. Os eventos de março de 1968 na Polônia culminaram com um expurgo que levou muitos comunistas poloneses de ascendência judia a sair do país. Bauman, que havia sido demitido da Universidade de Varsóvia, estava entre eles. Para deixar o país, teve que abdicar de sua cidadania polonesa. Primeiramente foi para Israel, para lecionar na Universidade de Tel Aviv. Em 1971, aceitou um convite para ensinar sociologia na Universidade de Leeds. Desde então, seus trabalhos passaram a ser publicados quase que exclusivamente em inglês, e sua reputação cresceu exponencialmente.
Em 2011, durante entrevista concedida ao semanário polonês Polityka, Bauman criticou Israel e o sionismo, dizendo que Israel não estava interessado na paz mas somente em "se aproveitar do Holocausto para legitimar atos inadmissíveis". Comparou o Muro da Cisjordânia aos muros do Ghetto de Varsóvia, onde centenas de milhares de judeus morreram. O embaixador israelense em Varsóvia, Zvi Bar, qualificou os comentários de Bauman como "meias verdades" e "generalizações infundadas."

Pensamento


De acordo com Bauman, nos tempos atuais, as relações entre os indivíduos nas sociedades tendem a ser menos frequentes e menos duradouras. Uma de suas frases poderia ser traduzida, na língua portuguesa, por "as relações escorrem pelo vão dos dedos". Segundo o seu conceito de "relações líquidas", formulado, por exemplo, em Amor Líquido, as relações amorosas deixam de ter aspecto de união e passam a ser mero acúmulo de experiências, e a insegurança seria parte estrutural da constituição do sujeito pós-moderno, conforme escreve en Medo Líquido. Bauman é frequentemente descrito como um pessimista, na sua crítica à pós-modernidade. De fato, enquanto os cientistas, poetas e artistas da mainstream empenham-se na exaltação das virtudes do capitalismo, ele se insere na contracorrente, procurando expor exatamente a face desumana do capital.

Obra

Bauman tem mais de trinta obras publicadas no Brasil, dentre as quais Amor Líquido, Globalização: as Conseqüências Humanas e Vidas Desperdiçadas. Tornou-se conhecido por suas análises do consumismo pós-moderno e das ligações entre modernidade e holocausto.







Referências

  1. Ir para cima «Tempo Social: Entrevista com Zigmunt Bauman»
  2. Ir para cima Morreu Zygmunt Bauman, o teórico da sociedade líquida. Por António Guerreiro. Público, 9 de janeiro de 2017, 18:14]
  3. ↑ Ir para:a b c «Zygmunt Bauman: uma biografia». Colunas Tortas. Consultado em 2015-08-17
  4. ↑ Ir para:a b Piotr Gontarczyk: Towarzysz "Semjon". Nieznany życiorys Zygmunta Baumana Archived 29 August 2013 at the Wayback Machine. "Biuletyn IPN", 6/2006. S. 74-83
  5. Ir para cima Aida Edemarter iam, "Professor with a past", The Guardian, 28 de abril de 2007.
  6. Ir para cima Roman Frister, Polish-Jewish sociologist compares West Bank separation fence to Warsaw Ghetto walls, Haaretz, 1º de setembro de 2011.
  7. Ir para cima «Amor Líquido - Zygmunt Bauman: uma resenha». Colunas Tortas. Consultado em 16 de agosto de 2015
  8. Ir para cima «Medo Líquido - Zygmunt Bauman: uma resenha». Colunas Tortas. Consultado em 2015-08-17

domingo, 4 de dezembro de 2016

Fidel Castro Genocida ou Herói?



No fim da noite de sexta-feira 25 de novembro de 2016 ás 22 horas e 29 minutos em pleno “Black Friday” para ser exato, uma noticia iria encher a maioria dos habitantes conscientes da terra, amantes da liberdade de alegria com a divulgação da morte do ditador cubano Fidel Castro, que morreu aos 90 anos de idade em Havana capital cubana, que foi tomada por ele em 1959 quando ele tinha 32 anos de idade.
Podemos fazer um paralelo do dia 25 de novembro de 2016 com a data em que o iate Granma (gíria para grandmother, avó, em inglês) saiu do México com muitos guerrilheiros em 1957, entre esses homens um se destaca o Médico Ernesto “Che” Guevara para as primícias da revolução.
Quem realmente foi Fidel Castro? Faremos uma explanação de sua historia sem fingimentos ou declarações amorosas “esquerdopatas” ou pré-julgamentos (se é que é possível) deste ditador que sua morte provocou reações antagônicas, mas que nos mostra o epilogo do socialismo na América latina e ao mesmo tempo corrobora para a máxima “ de que o comunismo é o caminho mais longo do capitalismo para o capitalismo”.
Fidel Alejandro Ruz Castro nasceu no dia 13 de agosto de 1926 em Birán (pequeno povoado cubano do município de Mayarí, na província de Holguín) filho de um rico fazendeiro, Castro adotou a política anti-imperialista de esquerda enquanto estudava direito na Universidade de Havana. Depois de participar de rebeliões contra os governos de direita na República Dominicana, e da Colômbia, planejou a derrubada do presidente cubano Fulgencio Batista, lançando um ataque fracassado ao Quartel Moncada em 1953. Depois de um ano de prisão, viajou para o México onde formou um grupo revolucionário, o Movimento 26 de Julho, com seu irmão Raúl Castro e  Che Guevara. Voltando a Cuba, Castro assumiu um papel fundamental na Revolução Cubana, liderando o movimento em uma guerra de guerrilha contra as forças de Batista na Serra Maestra. Após a derrota de Batista em 1959, Castro assumiu o poder militar e político como primeiro-ministro de Cuba. Os Estados Unidos ficaram alarmados com as relações amistosas de Castro com a União Soviética e tentaram sem êxito removê-lo através de assassinato, bloqueio econômico e contrarrevolução, incluindo a invasão da Baía dos Porcos em 1961. Contra essas ameaças, Castro formou uma aliança com os soviéticos e permitiu que eles colocassem armas nucleares na ilha, o que provocou a Crise dos Mísseis de Cuba - um incidente determinante da Guerra Fria - em 1962.
Adotando um modelo marxista-leninista de desenvolvimento, Castro converteu Cuba em uma ditadura socialista sob o comando do Partido Comunista, o primeiro no hemisfério ocidental. As reformas introduziram o planejamento econômico central e levaram Cuba a alcançar índices elevados de desenvolvimento humano e social, como a menor taxa de mortalidade infantil da América,  além da erradicação do analfabetismo e da desnutrição infantil. No entanto, tais avanços sociais foram acompanhados pelo controle estatal, com a supressão da liberdade de imprensa e de expressão e pela inibição da dissidência interna. No exterior, Castro apoiou grupos anti-imperialistas revolucionários, apoiando o estabelecimento de governos marxistas no Chile, Nicarágua e Grenada, além de enviar tropas para ajudar os aliados na Guerra do Yom Kipur, da Guerra Etío-Somali e da Guerra Civil Angolana. Essas ações, aliadas à liderança de Castro no Movimento Não Alinhado de 1979 a 1983 e ao internacionalismo médico cubano, melhoraram a imagem de Cuba no cenário mundial e conquistaram um grande respeito no mundo em desenvolvimento. Após a dissolução da União Soviética em 1991, Castro levou Cuba ao seu "Período Especial" e abraçou ideias ambientalistas e antiglobalização. Na década de 2000 ele forjou alianças na "onda rosa" da América Latina e assinou a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América. Em 2006, transferiu suas responsabilidades para o vice-presidente e irmão Raúl Castro, que assumiu formalmente a presidência em 2008.
No julgamento que se seguiu pelas ações violentas com o assalto ao quartel de Moncada em Santiago de Cuba e de Céspedes, (Bayamo) em 26 de julho de 1953 e fundaria depois o Movimento Revolucionário 26 de Julho (M-26-7), assumiu sua própria defesa e defendeu o direito dos povos de lutarem contra a tirania. Condenado a quinze anos de prisão, começou a cumprir a pena na prisão de Boniato (Santiago de Cuba) e depois foi transferido ao Presídio Modelo (Isla de Pinos), onde reelaborou sua auto-defesa que levou o nome de A História me Absolverá, e teve sua primeira publicação e distribuição clandestinas em 1954 e desde então foi editada numerosas vezes em Cuba, como em muitos outros países e traduzido nos mais diversos idiomas.
Castro era uma figura mundial controversa e divisiva. Ele foi condecorado com vários prêmios internacionais e seus partidários o elogiam por ter sido um defensor do socialismo, do anti-imperialismo e do humanitarismo, cujo regime revolucionário garantiu a independência de Cuba do imperialismo estadunidense. Por outro lado, os críticos o classificam como um ditador totalitário sanguinário responsável por mais de 100 mil mortes, cuja administração cometeu múltiplos abusos aos direitos humanos.
Alina Fernández Revuelta
 causou um êxodo de mais de um milhão de cubanos e o empobrecimento da economia do país sua propria filha Alina Fernández Revuelta nascida em Havana em 19 de março de 1956, fruto de relação com sua amante Natália "Naty" Revuelta Clews, fugiu do  regime de seu pai e mora nos E.U.A onde ajuda no resgate de cubanos que fogem de seu país natal em barcos fugidos da miséria e da opressão. Através de suas ações e seus escritos, ele influenciou significativamente a política de vários indivíduos e grupos em todo o mundo inclusive no Brasil através dos partidos de esquerda tais quais Pc do B (Partido Comunista do Brasil) e o PT (Partido dos Trabalhadores). 

            Sua tirania teve fim ironicamente em uma sexta-feira de “Black Friday” onde os preços de mercadorias caem e justamente nesse dia sua alma barata e suja o “diabo” arrematou.

Josias  Andrad

Bibliografia: 
Winkpedia

Livro Genese de La Revolucion Cubana - Gérard Pierre-Charles

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Coeficiente de Gini

Ontem (06/11/2016) 8,3 de milhões de jovens realizaram o dito "Exame Nacional do Ensino Médio" (ENEM) e na matéria de matemática apareceu uma questão dita por muitos matemáticos como difícil que foi a de número 156 da prova cinza (154 da prova amarela, 169 da prova azul e 173 da prova rosa), que cobrava que os alunos soubessem o que significa o Índice de Gini, um conceito de medição da desigualdade, da área de economia.

Quem foi Gini?


Corrado Gini (23 de maio de 1884 - 13 de março de 1965) foi um estatísticodemógrafo e sociólogo italiano que desenvolveu o coeficiente de Gini, forma de medição da desigualdade de renda numa sociedade. Gini também foi um influente teórico fascista, e também As bases científicas do fascismo'animal de teta' em 1927.

O Coeficiente de Gini é um importante índice de medição das desigualdades sociais e do nível de concentração de renda.


Coeficiente de Gini – também chamado de Índice de Gini – é um dado estatístico utilizado para avaliar a distribuição das riquezas de um determinado lugar. Esse índice recebe esse nome em homenagem ao seu desenvolvedor, o estatístico italiano Corrado Gini, que elaborou esse conceito em 1912.

Esse importante dado numérico funciona da seguinte forma: é mensurado em um número que vai de 0 a 1, de forma que 0 representa um país totalmente igualitário – isto é, em que toda a sua população possui a mesma renda –, e 1 representa um país totalmente desigual, em que apenas um indivíduo ou uma parcela muito restrita de pessoas concentra toda a renda existente.
O Brasil possui um dos piores coeficientes de Gini do mundo, ficando empatado com Equador e estando à frente de países como a Bolívia, Camarões e Madagascar, segundo um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O certame ainda destacou que, entre os 15 países mais desiguais do mundo, 10 deles encontram-se na América Latina.
Isso significa que o Brasil possui um dos maiores níveis de concentração de renda, em que uma pequena parcela da população retém a maior parte da riqueza. Apesar desse dado ruim, vale a ressalva de que o país é aquele que apresenta a melhora mais significativa do índice de Gini em todo o mundo nos últimos anos. Em 1990, o valor do coeficiente era de 0,607 e, em 2011, caiu para 0,527.
Os motivos que levaram à sucessivas quedas, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), estão relacionados, sobretudo, com a estabilização da moeda depois da forte crise econômica que marcou o país no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, além da difusão de programas governamentais de base assistencialista, como o Bolsa Família. Além do mais, apesar do modelo educacional brasileiro ainda ser considerado precário, houve algumas melhorias nesse setor, o que, aliado ao aumento da oferta de empregos, condicionou melhores oportunidades à parcela mais pobre da população.
Os países menos desiguais em todo o mundo, conforme as medições do coeficiente de Gini, são Hungria (0,244), Dinamarca (0,247) e Japão (0,249). Em situação alarmante, além do Brasil e dos demais países mencionados, destacam-se a África do Sul (0,593) e a Namíbia (0,707).
Apesar de ter a importante função de demonstrar os níveis de desigualdade existentes em um determinado território, o índice de Gini possui algumas limitações. Primeiramente, os dados informados nem sempre são precisos e referem-se a um período relativamente curto ao longo do ano, o que diminui o seu grau de precisão. Em segundo lugar, os dados são obtidos a partir de um fornecimento voluntário por parte dos governos e agências de pesquisa, de forma que, conforme os diferentes interesses, as informações podem apresentar distorções. Além disso, esse dado não verifica a potencialidade de crescimento da população mais rica em face da população mais pobre e vice-versa, apresentando apenas informações “estáticas”.
De toda forma, esse coeficiente é importante no sentido de fornecer uma melhor noção da desigualdade existente no mundo, além de promover a abertura necessária para medidas de inclusão de renda e melhorias nas condições de vida da parcela mais pobre da população. 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A Religiosidade Africana



Qual é a verdadeira religião dos africanos? Existe uma ou são várias as religiões na África? Quais os motivos de terem tantos nomes e deuses diferentes? Em que medida é importante para nós, brasileiros, conhecermos a religiosidade africana? Serão essas, entre outras questões, que tentaremos responder ao longo desta Unidade, bem como apresentar alguns aspectos relevantes para a compreensão do universo religioso na África. Leia com atenção os textos, pesquise, e reflita como os tais elementos e suas múltiplas interpretações influenciam o nosso cotidiano.

A Religiosidade no Continente Africano


Os povos, em suas singularidades, possuem diferentes formas de compreender, interpretar e se relacionar com o universo ao seu redor. A maneira como determinado grupo se expressa é fruto de experiências vividas por várias gerações ao longo do tempo. As estratégias de resistência, as técnicas de ocupação ou o simples modo de tratar a terra são os elementos formadores do que chamamos de cultura:

[...] cultura, em sua origem latina, significa “ação, processo ou
efeito de cultivar a terra; lavra, cultivo”. Posteriormente, as ciências
humanas irão ampliar o seu uso para as ações do homem que
criam estratégias de sobrevivência e transformação do meio. Daí
a antropologia compreender cultura como “conjunto de padrões
de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que
distinguem um grupo social” ou ainda, “forma ou etapa evolutiva
das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais (de um lugar
ou período específico); civilização.
(DICIONÁRIO HOUAISS..., 2001, verbete “cultura”)

A cultura de um povo ou grupo pode ser conhecida por meio de suas várias manifestações: festas populares, organizações administrativas, distribuição de tarefas e de poder, hábitos alimentares, cultos religiosos e tradições. A diversidade cultura de um continente é expressa também pelas suas manifestações religiosas e, no caso da África, a característica marcante é a pluralidade de suas expressões. Não existe uma religião africana, mas religiões africanas que são tão múltiplas como as culturas dentro de uma nação ou grupo linguístico. E, justamente pela sua diversidade e multiplicidade, elas são de difícil compreensão e catalogação.

Religião como elemento cultural

Glossário: RELIGIÃO tem origem no termo latino re-ligare que significa voltar a ligar, ligar
novamente, religar
. As ciências humanas estudam há muito não só as origens, mas
também as manifestações religiosas dos povos no decorrer do tempo, bem como suas consequências na vida cotidiana das pessoas e as influências sócio-politicas-econômicas dos diferentes grupos religiosos.
·.
A cultura de um povo ou grupo abrange todas as esferas da vida pessoal e comunitária e
determina a maneira como tal grupo irá habitar a terra. Cada grupo irá criar estratégias para sua sobrevivência e manutenção sem, no entanto, perder as suas origens e preservando a experiência das gerações anteriores. Dessa forma, o idioma, os hábitos, os alimentos, a organização política, a distribuição dos recursos, as técnicas agrícolas, a domesticação de animais, etc. serão partes de um todo que torna singular a existência daquele grupo específico. Portanto, as práticas religiosas, os mitos e a maneira de conceber sua relação com o Sagrado e com o mundo ao redor são elementos da cultura.
Num continente como o Africano, a pluralidade de culturas não se limita às nações, mas também a pequenos grupos ou clãs dentro dos países. A atual República Democrática do Congo – antigo Zaire – é um significativo exemplo, pois, como nota Barco (1982, p. 129),

[...] país de vinte e seis milhões de habitantes, conta com
quatrocentos e cinquenta tribos, cada qual representando
uma cultura diferente, com cerca de 300 línguas e dialetos.
Se isso acontece em um só país, o que pensar então da
totalidade dos países da África negra, mais ou menos vinte
ao total?


Atualmente, o continente africano é formado por 54 (cinquenta e quatro) países
reconhecidos e 6 (seis) em pendência!

Como aconteceu com todos os povos, os africanos passaram por vários estágios em seu
desenvolvimento cultural. Os grupos passaram de pequenos núcleos familiares a clãs, em alguns casos criaram grandes civilizações, povos e reinos poderosos e temidos. Todas essas mudanças provocaram alterações em seu modo de viver e de habitar o mundo ao seu redor, bem como de se organizar politicamente. A religião desempenhou um importante papel para a manutenção das tradições culturais desses povos e, embora tenha sido influenciada por tradições posteriores, a religiosidade africana manteve vários de seus elementos fundamentais, inclusive nos africanos da diáspora.

Sobre as civilizações africanas, confira os trabalhos sobre os reinos de Axum, de
Kush, da Núbia, dos povos Haussás, além do conhecido Egito.

O homem africano não deixou de cultuar seus deuses ancestrais, as forças da natureza e o divino presentes na existência de cada pessoa, mesmo depois de todas as transformações sofridas pelas diversas nações, sua desestruturação, devido ao comércio com os árabes, às invasões europeias e ao mercado de carne humana, que causaram o sofrimento e a destruição de famílias e até de tribos inteiras.

A diversidade religiosa-cultural na África

Alguns estudiosos das religiões, como Küng (2004, p. 15), na tentativa de melhor conhecê-las e estudá-las, classificam-nas em, ao menos, três grandes correntes: “as religiões originárias da Índia: hinduísmo e budismo; as religiões originárias da China: confucionismo e taoísmo; as religiões originárias do Oriente Médio: judaísmo, cristianismo e islamismo”. E mais adiante o mesmo autor, afirma que:

[...] A estas acrescentam-se as religiões tribais que –
praticamente sem dispor de quaisquer textos escritos
– constituem de certa forma o terreno onde todas as
religiões estão enraizadas, e que, ao mesmo tempo,
continuam a existir nas várias regiões do mundo.

Durante muito tempo, as religiões tradicionais africanas, baseadas em mitos, lendas ou
tradições eram denominadas como primitivas. Tais opiniões que delas se produziam eram frutos de observadores estrangeiros que as comparavam com suas próprias religiões e locais de culto, atribuindo valores e conceitos pejorativos às práticas africanas. Entretanto, a religião só pode ser compreendida quando vista a partir de sua própria cultura, com seus ritos, símbolos e gestos tradicionais.

As dificuldades de pesquisas, bem como a diversidade de manifestações religiosas unidas ao fato de que as tradições são transmitidas oralmente – inexistência de relatos escritos ou livros sagrados – contribuíram para o preconceito em relação aos ritos e cultos africanos. Para o africano, a religião não é um mero sistema composto por rituais e mitos celebrados em cultos e festas. Nas palavras de Tshibangu (2010, p. 605), ela “impregna toda a trama da vida individual e comunitária da África”, e ainda, constitui “o modo de vida, o fundamento da cultura, da identidade e dos valores morais”.

Cada grupo étnico ou cultural africano tem seu próprio culto religioso e, num mesmo
país, as expressões religiosas podem ser muito diversas e, em alguns casos e situações, até antagônicas. Daí não ser possível falar de uma única religião tradicional africana, que seja uniforme em todo o continente. O contato e a influência de outras religiões, sobretudo com o Islamismo e o Cristianismo, impactaram todos os âmbitos da vida do africano. Sua visão de mundo, de sociedade, de sagrado foi transformada pelos modelos partilhados pelas outras crenças religiosas. Papel fundamental nesta mudança foi o desempenhando pela educação que, em vários países africanos, ficou a cargo de missionários ora cristãos, ora mulçumanos.


A prática de outras religiões não apagou no africano aquilo que ele tem de mais profundo e que foi absorvido por meio dos seus ancestrais. Como afirma Tshibangu (2010, p.606):

A religião tradicional africana consistiu, especialmente, em um
meio de explorar as forças da natureza e de sistematizar os novos
conhecimentos sobre o ambiente humano e físico. Em seu desejo de
compreender os múltiplos aspectos da natureza e de fazer frente a eles,
o africano identificou várias divindades e instaurou numerosos cultos.
A religião tradicional africana não fazia proselitismo e era aberta. Ela
tolerava a inovação religiosa como manifestação de um novo saber,
sempre esperando interpretar e interiorizar estes conhecimentos no
âmbito da cosmologia tradicional. Desta forma e paulatinamente, o
cristianismo à imagem do islã, desenvolveu-se na África, inicialmente,
em uma relação simbiótica com a religião tradicional.


Apesar das diferenças culturais e das influências externas sofridas, as religiões tradicionais preservaram alguns elementos que são comuns entre elas e nos ajudam a compreender a relação do africano com o sagrado.

As religiões tradicionais

Um dos primeiros aspectos a serem considerados quando se trata de religiosidade africana é a diversidade cultural do continente. Para este caso, é interessante dividir o continente em, apenas, duas grandes regiões: a África do Norte e a África subsaariana, pois é possível encontrar algumas semelhanças no interno de cada uma delas.


A região do norte da África (ou Setentrional, o “Magreb”) se estende do Mediterrâneo até o Atlântico e o deserto do Saara, incluindo a Etiópia e o Egito. E como elemento religioso comum está a presença das tradições islâmica e cristã que há muito tempo chegaram ao continente negro e que são professadas pela maioria das pessoas desses países.
A África Subsaariana é a vasta região do continente africano que compreende a maioria dos países. Em muitos casos, esses povos ainda preservam a organização social em tribos ou clãs, o que permite a manutenção de muitas das tradições ancestrais, inclusive religiosas. Entretanto, junto com o grande número de adeptos das religiões tradicionais convivem, pacificamente, os praticantes de outras religiões como o Islã, o Cristianismo e, também, o Hinduísmo. Sobre dados estratégicos na África, observemos o que diz Tshibangu (2010, p.607):

Cada qual sabe o quanto é difícil obter estatísticas exatas, por
diversas razões: os recenseamentos nacionais são raros ou
inexistentes, as estatísticas constituem um desafio na luta pelo
poder entre grupos iguais e, finalmente, nem sempre se sabe, em
qual momento aqueles pretensos adeptos do islã ou do cristianismo,
efetivamente, abandonaram a religião tradicional e, tampouco,
quando eles retornaram a esta última.

Diante disso, é possível para autores como Küng (2004, p. 40) afirmarem que:

O número de pessoas que se consideram cristãs, por exemplo
no país central do Zimbábue, na África Meridional, mal chega
à metade. Mas todos – cristãos e não-cristãos (talvez por
influência cristã ou islâmica) – acreditam em Mwari, o único Deus
criador. De mistura com isso podemos muitas vezes encontrar a
tradicional religiosidade africana, segundo a qual os fatores mais
importantes que determinam o mundo e o homem são as forças
invisíveis. Em tudo isso é fundamental a relação com os espíritos
ancestrais. Eles se encontram mais perto dos homens do que o
distante Deus criador.

As religiões tradicionais, apesar das diferenças e particularidades, apresentam alguns
elementos comuns. Esses podem ser reconhecidos nas várias tradições e apontam para uma cosmovisão e uma relação com o mundo e com o outro típicas do homem africano. Para Lopes (2011, p. 49), quando estuda as tradições dos povos Iorubás*:
[...] existe uma força suprema, geradora de todas as coisas. Abaixo
dela existem e são cultuadas as forças da natureza e os espíritos
dos antepassados.
No pensamento tradicional negro-africano [...], o maior bem
da existência é a força vital. Assim, todos os seres, sejam eles
humanos, animais, vegetais ou minerais tem sua força, que pode
ser aumentada, diminuída ou transferida para outro ser.

Você sabia?
Você sabia que os negros que vieram para o Brasil eram de diferentes procedências? As várias culturas que foram transferidas para este lado do Atlântico foram classificadas em dois grandes grupos: os nagôs-iorubas e os bantos. Pesquise e descubra mais a respeito!!

Dentre esses elementos comuns, destacamos: o respeito pelos ancestrais, a existência de
forças do bem e do mal, a fé nos espíritos ou na bruxaria, a importância dos curandeiros, a existência de um deus supremo, a oralidade na transmissão das tradições. A maneira de se relacionar com o sagrado determina a organização da vida em sociedade na África.


Respeito pelos ancestrais

Os dados sobre as religiões tradicionais estimam que o número de seus adeptos esteja em torno de 20%. A maioria da população total declara pertença a outros grupos religiosos, como o islã e o cristianismo. Entretanto, a base da religiosidade e dos valores morais encontra-se nas tradições dos clãs e tribos, na experiência transmitida por gerações. Um primeiro elemento a ser destacado é o respeito pelos ancestrais, são os antepassados os responsáveis pela ligação entre o grupo e o sagrado. Em O Livro das Religiões, GAARDER (2000, p.93) escreve sobre o culto aos antepassados e afirma que ele é:

uma expressão que implica interação entre os vivos e os mortos.
Os vivos obtêm força e socorro de seus ancestrais; ao mesmo
tempo, os mortos dependem das oferendas de seus descendentes:
é por meio desses sacrifícios que adquirem sua força e potência.
Se não receberem oferendas, irão “morrer”, isto é, cessar
completamente de existir.

Como afirma Tshibangu (2010, p.608), “[...] especialmente através de libações, crê-
se ainda que eles intervenham na vida dos seus sucessores [...]”. Ao mencionar em seus
estudos a estrutura filosófica do pensamento dos povos bantus, Lopes (2011, p. 149)
afirma que: “De fato, parece que em todas as religiões bantas os espíritos dos ancestrais
são os intermediários entre a divindade suprema e o homem”, e, mais adiante, citando
outros autores, ele segue afirmando:
Entre os Bantos, então, a onipresença dos ancestrais é total:
“Nenhum trabalho nos campos, nenhum casamento, nenhuma
cerimônia de puberdade tem lugar sem que estejam em ligação
com os mortos” (THOMAS; LUNEAU, 1981, I, p. 78). Assim,
eles não só continuam a fazer parte da comunidade dos vivos como
evidenciam sua importância. Porque “os mortos, ao passarem
pela agonia individual da morte, adquiriram um conhecimento
mais profundo do mistério e do processo de participação vital do
universo” (NYANG, 1982, p. 30).
Para o africano, uma vez nascidos, somos para sempre vivos. Portanto, a família
compreende os vivos e os mortos, e também os ainda não nascidos. Esse ancestral que faleceu continua próximo à tribo, à família, à comunidade dos ainda vivos. Nem todos aqueles que morrem tornam-se ancestrais e, por isso, nem todos são objetos de grandes cultos – algumas homenagens se limitam a flores, enfeites e cuidados com o lugar de sepultamento. Na maioria das vezes, torna-se um ancestral digno de culto comunitário, alguém que teve algum destaque durante a vida, como patriarca, chefe tribal, líder militar, etc.

Existência de forças do bem e do mal

Para o africano, o universo é concebido como uma realidade na qual a totalidade dos seres
convivem harmoniosamente, e onde as várias realidades coexistem concomitantemente. Assim, afirma Tshibangiu (2010, p. 610), acreditam que “[...] existem forças do bem e do mal, passíveis de manipulação pela acessão direta às divindades, por meio das orações e do sacrifício [...]” A crença na existência de espíritos que povoam o mundo físico é fenômeno conhecido em várias religiões, em diferentes épocas da história da humanidade. Para o individuo que viveu na Idade Média e era de formação cristã, o mundo estava repleto de espíritos e várias práticas, ritos e cerimônias eram necessários para expulsá-los – em alguns casos, quando tais espíritos se apossavam das pessoas, somente os exorcismos ou a fogueira eram suficientes para eliminá-los. Nas religiões tribais, como as tradicionais africanas, os espíritos podem se manifestar como protetores de famílias ou crianças, como espíritos errantes que não tiveram o sepultamento adequado ou ainda como protetores de tribos inteiras ou de seus chefes. Os amuletos e talismãs são necessários tanto para afastar os maus quanto para manter próximos os bons espíritos. Segundo Küng (2004), esse tipo de pensamento não é exclusivo de africanos, pois não é incomum encontrar entre europeus pessoas que temem os maus espíritos ou que procuram proteção de bons espíritos por meio do uso de amuletos, orações, rituais ou coisas semelhantes.
                                                                                 
Fé nos espíritos ou na bruxaria: os curandeiros

As práticas relacionadas aos espíritos transcendem a dimensão religiosa do africano. Essa fé é observada nos costumes, tradições e elementos do patrimônio cultural. Por isso é possível afirmar, nas palavras de Tshibangu (2010, p.610) que:

Desta forma, a solidariedade, constatada em meio a numerosas famílias expandidas, clãs ou comunidades, articular-se, todavia, em torno de algumas crenças em espíritos ancestrais, venerados periodicamente nos ritos conduzidos por sacerdotes.

O curandeiro – ou nganga (em banto) – é o responsável por cuidar da saúde da comunidade. Para a sociedade tradicional africana, a visão de saúde é algo mais amplo, e não apenas a ausência de doença, pois está associada, como nos afirma Tshibangu (2010, p. 610), ao:
bem estar na vida cotidiana, o sucesso em sua propriedade rural ou
em seu trabalho, qualquer fosse ele, a saúde das crianças, a sua
felicidade na escolha de um parceiro para a vida, e assim,
sucessivamente.
Os males não são meramente físicos, os sintomas denunciam uma situação de desarmonia que pode estar associada a situações relacionadas com um vizinho, um familiar ou um ancestral já falecido. Daí a consulta ao curandeiro, pois ele conhece os segredos das ervas e é capaz de, ao identificar uma doença e, principalmente, as suas causas, indicar o tratamento e a erva adequado para o caso. Como o africano acredita na existência de bruxos ou feiticeiros que usam do seu conhecimento para a prática do mal, cabe ao curandeiro anular o feitiço e reestabelecer a saúde da pessoa. “O tratamento, porém, costuma ser acompanhado de amuletos e fórmulas mágicas para controlar os espíritos maus” (GAARDER, 2000, p. 94).
Alguns curandeiros podem também ser consultados como adivinhos e, para realizar o
seu trabalho, usam várias técnicas de adivinhação com objetos, amuletos que manifestam a resposta do espírito. O adivinho pode ainda, com o recurso do transe alcançado por meio de músicas e danças, ser possuído por um espírito e permitir que esse se manifeste diretamente ao consulente. Essas pessoas possuem um importante papel tanto na vida da comunidade como no culto religioso.

Crença num Deus supremo. A oralidade

As culturas africanas têm como um dos elementos comuns, marcantes e característicos, a transmissão oral de seus conhecimentos, e foi exatamente por meio dos contos e mitos que as tradições religiosas foram passadas de geração em geração.

Glossário: Mito, segundo uma das definições do dicionário Houaiss, é um relato simbólico, passado de geração em geração dentro de um grupo, que narra e explica a origem de determinado fenômeno, ser vivo, acidente geográfico, instituição, costume social, etc.

Os estudiosos, ao resgatarem vários mitos de criação, puderam concluir que na maioria dos clãs ou tribos existe a crença em um deus supremo, criador de todas as coisas que existem. Esse Deus criador recebe muitos nomes, o que é natural tendo em vista que existem mais de 1000 línguas faladas no continente africano.
Ao falar da ideia da força que permeia quase todas as culturas africanas, Lopes (2011, p. 145), menciona as tradições bantas dos Balubas, estudadas pelo padre Théodore Theuws, pois,
[...], a fonte de toda força e de toda vida é Deus, ou seja,
Syakapanga, o Pai-Criador ou ainda Mwine bumi bwandi, aquele
que detém a vida em si mesma, pois não a recebeu de ninguém;
aquele que “forjou as coisas com a palavra saída de sua boca;
aquee que não é parte das forças da natureza e sim o Criador que
as domina”, já que os Balubas não são panteístas (1958, p. 25).

Um mito resumido da criação do mundo
A ponte entre o Orum e o Aiyê
Reza uma história africana, originária de o Orum, o espaço infinito, e lá vivia o deus supremo Ketu, que no início de tudo havia Olorum. Certo dia, Olorum criou uma imensa massa de água, de onde nasceu o primeiro orixá: Oxalá, o único capaz de dar vida. Olorum mandou Oxalá partir e criar o aiyê, o mundo. Só que Oxalá não fez as oferendas necessárias para a viagem e enfrentou
sérios problemas no caminho. Quem acabou criando o mundo foi
Odudua, sua porção feminina. Para consolar Oxalá, o deus supremo lhe deu outra missão: a de inventar os seres que habitariam o aiyê. Assim Oxalá usou a água branca e a lama marrom para criar peixes azuis, árvores verdes e homens de todas as cores. Foram justamente os homens que, mais tarde, imaginaram formas de adorar e representar a saga de deuses como Oxalá, Odudua, Olorum e tantos outros.
Fonte: Canal Futura

Esse Deus supremo é o responsável, em última instância, pela criação de tudo que povoa o mundo que conhecemos: animais, vegetais e seres humanos. Para muitos povos, um Deus com tanta responsabilidade e sendo o criador de tudo não está sempre disponível e, por isso, ele criou seres intermediários que estão presentes nas florestas, nas montanhas, rios ou mares e que fazem desses lugares seus espaços de domínio. Existem, portanto, seres que dominam os fenômenos da natureza – como os ventos, as tempestades ou os raios –,os que conhecem os segredos das ervas e plantas e os que dominam o aço e os outros metais. Diante de uma necessidade, o homem deve procurar esse espírito ou outro ser intermediário e a ele pedir o conselho, a ajuda ou a mediação. Esses seres são responsáveis, ainda, pela manutenção da saúde e da fertilidade das mulheres e da terra.
Atualmente existe um esforço em reconhecer o valor das fontes orais, pois foi por meio delas que as tradições religiosas – assim como a cultura e os valores morais – foram acumuladas, preservadas e transmitidas em várias gerações de africanos. O papel que a religião tradicional desempenhou nas lutas pela independência em vários países também está sendo resgatado.

Algumas considerações

O Brasil é um dos países que mais africanos recebeu durante os quase três séculos de
escravidão negra. E esses homens e mulheres não chegaram vazios de seu patrimônio cultural e religioso. O universo religioso africano – recriado nas condições possíveis de um cativeiro –, assim como o indígena e o cristão-europeu –, fez parte da formação do povo brasileiro. O preconceito com relação às praticas religiosas que preservaram parte desse patrimônio cultural é fruto da ignorância a respeito das histórias, culturas e religiões trazidas por pessoas de clãs, tribos e nações tão diversas. Ao retomar a sua história e ao procurar conhecer mais a história da África, o brasileiro percebe as diferenças e as contribuições que herdamos desse continente. Num país com tantas influências religiosas, culturais e linguísticas, é fundamental trilhar o caminho mais adequado, que é o do conhecimento, do respeito e da prática da tolerância entre os grupos. As palavras de Gaarder (2000, p.15) são bem oportunas:


O respeito pela vida religiosa dos outros, por suas opiniões e
seus pontos de vistas, é um pré-requisito para a coexistência
humana. Isto não significa que devemos aceitar tudo como
igualmente correto, mas que cada um tem o direito de ser
respeitado em seus pontos de vista, desde que estes não violem
os direitos humanos básicos.